Entre textos e anúncios da alma, vejo-me, por tantas possíveis palavras concorrentes, obrigada a selecionar as candidatas. Minha ânsia por tanto dizer me inclina sempre na direção de caber mais uma. Mas palavras demais são ruins. Coube a mim esta decisão e aqui está ela. Escrita, revisada, e enfim, publicada nesta página, a lista de selecionadas.
Explicitando os critérios utilizados, devo revelar que muitas vezes a admissão de uma ou outra palavra acaba sendo um espanto. Porém, na maioria das ocasiões, o que conta, a favor ou contra, é a tessitura do referido conjunto de letras. O que pretendo dizer com isso é que já não basta que a palavra diga por si mesmo o conteúdo desejado pelo autor de um texto. A combinação com as demais candidatas ao redor é o que realmente lhe tornará uma das contempladas deste ou de qualquer edital. Como uma trama, o texto nasce do envolvimento e da disposição das palavras-fios que, uma a uma, por cima, por baixo, darão corpo ao tapete das ideias.
O caminho da escolha é sinuoso. Muitas palavras são apagadas ou trocadas por quais melhor conduzam o pensamento. Às vezes, frases inteiras são limadas em sua falta de coerência. Há casos ainda onde o problema é maior: faltam candidatas qualificadas para a função. Fica o escritor engasgado. Sem poder dividir sua ................. com mais ninguém, ele segue condenado a imaginar sozinho.
Injustiças hão de ser feitas. Todo sistema de escolha é falho. Como qualquer processo seletivo, sempre acontece de se prejudicar alguns. Não era um bom dia para a palavra, para o escritor, para o revisor que olhava tudo com olhos viciados. Nada se pode fazer quanto a isso. Resta à palavra perdedora o caminho resiliente de prosseguir atenta aos sinais da contemporaneidade para que, logo mais, possa cair no gosto dos modistas.
A discussão contempla o fato de que as relações pessoais do júri com as candidatas sempre acabam por influenciar. No elenco de um texto, pode-se jurar encontrar palavras repetidas, parecidas, repetidas, aparecidas. O que nos falta, talvez, é qualquer parâmetro legal. Quem fiscaliza a conduta daquele que, muitas vezes sem responsabilidade, conduz o lápis e esfrega impunemente sua borracha? Quem advoga pelas injustiçadas palavras que nunca sequer estrelam listas de supermercado? Quente!
Pelas frestas de um texto, percebemos, quando atentos, escolhas, se não radicais, inconscientes, que são fruto de imbricadas relações de poder. Não é a toa que a expressão “palavra mal colocada” é conhecida nas inúmeras tentativas apaziguadoras de um conflito de opinião. Não foi bem isto que eu quis dizer. Com a frase anterior, posso eu, dona e responsável por minha própria colocação, transferir culpa aos preteridos vocábulos.
Neste sentido, coloco também a público meu posicionamento acerca da polêmica questão das cotas. As palavras chulas e tabuístas, socialmente desvalorizadas e preconceituosamente atribuídas às classes populares pouco escolarizadas foram sim, por séculos, marginalizadas e excluídas das margens livrescas. Cabe promover urgentemente políticas públicas de retratação à tamanha violência simbólica.
Pum, chulé, atoladinha.
Por fim, atento para a o desfecho inacabado deste ou de qualquer texto. Uma obra, ainda que finalizada, é sempre ponto de partida para críticas e releituras. Sendo assim, não pretendo encerrar a discussão nem fazer de meu ponto final um
* O pedido de recurso está aberto às candidatas não contempladas. Para fazê-lo, basta que compareçam ao pensamento da autora que vos escreve munidas de significado e sentido.